Comentário ao artigo “Polícia Gay?”

Posted: 15 de Junho de 2009 by Ricardo Gouveia in Uncategorized

Não poderia estar mais em desacordo com o artigo de opinião do Sr. Agente António Cartaxo, pois o mesmo é espelho de um desconhecimento vasto das pretensões do Grupo recentemente criado no seio da estrutura sindical de policia que com muita ou pouca expressão existe e está presente nas discussões necessárias com a tutela para o melhor funcionamento da policia de segurança publica, PSP.

Tentarei por isso seguir a noticia para que seja fácil acompanhar o rebatimento de argumentos. Note-se que estou na qualidade de activista pelos direitos humanos e conhecedor do projecto e não como policial, que não o sou, ou seja sou um cidadão comum, apenas mais interessado que os demais por esta matéria.

Diz o senhor que o SUP tem uma expressão reduzida na representatividade da PSP enquanto estrutura sindical, mas pelos vistos tem representatividade, e ao que me parece este sindicato não está á espera de números para levar á tutela entre outras questões a inclusão de uma alínea que não existia, e que poria em causa (em certa medida) o respeito e trato entre elementos, e que muito bem o senhor expressa na sua redacção a inclusão no artigo 8º da não discriminação com base na orientação sexual.

Depois não será muito correcto pensar que alguma expressão seja ela qual for, e sobre o que quer que seja, só porque poderá ser minoritária não merece ser escutada, ou por outro lado ser desprezada.

Não teria sido necessário colocar esta expressão se de facto não existisse discriminação dentro da PSP, (como em todo o lado), de uns elementos sobre outros, por isso e de certo dentro de uma lista mais vasta o SUP fez “finca pé”, ou bandeira como o senhor diz, para incluir estas palavras, que ao contrario daquilo que fará supor pelas suas palavras, não vai prejudicar ninguém, mas sim dar garantias a um determinado numero de indivíduos que ate então não eram de forma alguma referenciados.

Permita-me discordar uma vez mais, aquilo que escreve não poderia estar mais errado! Existe SIM discriminação sobre alguns elementos, (também seus colegas), pelo facto de serem ou terem uma orientação sexual diferente.

Os relatos existem, as realidades não são ficção, e desde a chacota verbalizada, ao diz que disse, terminando na perseguição, tem sim elementos das forças de segurança da PSP, GNR, e outras empresas privadas, que são foco de humilhação por parte dos colegas.

Uma breve correcção que acredito seja um lapso involuntário da sua parte, levado pela excitação do momento, orientação sexual não é o mesmo que ser-se feminino ou masculino, orientação sexual tem a ver com, por quem nos sentimos atraídos sexualmente falando.

Gostei da palavra inventada e dos diminutivos apresentados, mas deixe que lhe diga que é completamente impossível fazer qualquer confusão uma vez que os comportamentos que descreve fazem parte do ser homossexual, são comportamentos que também fazem parte da heterossexualidade, quantos não são os heterossexuais que conhecemos que pelos seus comportamentos, expressões, ou outros sinais, pensamos serem uma coisa e são outra, e a quem damos por vezes alcunhas nada simpáticas, que visam apenas a humilhação!

Realmente os seres vivos são seres sexuais, no caso o ser humano também o é, o problema aqui é a assunção que uma suposta maioria faz sobre a sexualidade dos outros, que impede alguns de poderem partilhar com os seus pares as suas ansiedade, desejos, ou simplesmente partilhar o seu quotidiano.

Veja-se o senhor por exemplo, na sua experiencia profissional só conheceu UM homossexual assumido, não acha isso estranho?

Eu acho, ou melhor não acho, uma vez que isso acontece porque única e simplesmente nem todos estamos psicologicamente preparados para aturar o comportamento ignorante das pessoas que nos rodeiam, e no caso dos nossos pares.

Porque será que não conhece mais nenhum homossexual assumido na PSP?

Talvez porque o ser humano em cima da sua suposta sapiência toma determinadas sexualidades, como algo inferior. Os mesmos que esquecem as noites mal dormidas passadas ás voltas num qualquer “point” de prostituição enquanto as suas esposas aguardam em casa.

Como disse o agente Pimentel, elemento crucial do Grupo Identidade X/Y, a PSP, as esquadras onde cada elemento presta serviço, são a sua segunda casa, e como casa de cada um que o é, queremos sentir-nos bem, o que implica uma partilha a todos os níveis, onde seja tão natural por exemplo o Sr. Cartaxo dizer ao elemento seu amigo que teve uma chatice com a sua senhora, como o seu camarada homossexual, poder dizer que conheceu alguém especial e que é um homem fantástico, e que os dois possam falar do assunto sem que isso crie qualquer mau estar, coisa que hoje em dia não acontece no geral mas apenas em casos muito, mesmo muito, pontuais.

Assim e tanto quanto sei a listagem de prioridades do SUP é bem mais vasta que apenas o grupo IXY, pelo que lamento este seu artigo apresente uma visão afunilada sobre um determinado ponto dessa mesma agenda.

Mas não nos esqueçamos que pelos vistos e segundo as suas palavras, foi o SUP que introduziu uma questão relativa aos direitos humanos, nos estatutos da PSP.

Desengane-se quem pensar que estou a defender o SUP, defendo este como qualquer outra organização que queira comigo ou sem mim, apresentar propostas e trabalho no sentido do respeito dos direitos humanos, direitos sexuais, raciais, de género, ou quaisquer outros, de igual importância.

Termino dizendo que não estamos a inventar a roda, essa já foi inventada á muito, estamos sim atrasados no respeito de uns pelos outros, no geral o ser humano não se respeita. Associações ou grupos de trabalho homossexual nas forças policiais já existem á anos, existem um pouco por todo o mundo civilizado, tem sido um ponto importante como todos os outros na luta pelo respeito da integridade humana e no caso também dos agentes, hoje estamos a criar espaço para mais um passo, desta feita no respeito das Lésbicas e Homossexuais dentro das forças de segurança, daqui a uns anos, porque gostamos de andar atrasados, vamos discutir o que já é uma realidade lá fora, a integração de pessoas transexuais nestas forças de segurança, e forças armadas.

João Paulo

Activista Direitos Humanos & GLBT

Comentários
  1. Filipe diz:

    Quem fala assim, definitivamente está aqui para defender, ajudar, orientar, etc… qualquer um de nós que encontra pelas esquadras e postos uns senhores Cartaxos. Pessoalmente já tive oportunidade de me cruzar com alguns. Sou policia, não sou assumido, porque como o caro Paulo bem disse, “Talvez porque o ser humano em cima da sua suposta sapiência toma determinadas sexualidades, como algo inferior”.Momentaneamente não me sinto preparado psicologicamente para lidar com eles. Mas acredito que um dia e com a vossa ajuda seremos “livres” para podermos ser nós. Muito obrigado por existirem e dêem também uma ajudinha aos GNRs porque nos andamos muito calados em relação a estes assuntos.

    • Belmiro Pimentel diz:

      Caro colega,
      É muito bom quando surgem comentários destes no nosso Blog, em que sem se identificarem, se autenticam como elementos das forças de segurança… Para acordar os senhores lá do alto, para um grave problema discriminatório, de medos, que efectivamente existem…. E porquê, falta de formação, falta de carácter, que infelizmente ainda encontramos no seio das nossas corporações.
      Obrigado

      • pedro diz:

        Olá, boa noite a todos. Concordo com vocês, eu sou professor e sinto o mesmo, é muito difícil assumir o que se realmente é, além das pessoas não aceitarem voce sente um medo constante e intenso de se expor. Gostaria de poder conversar com pessoas na mesma situação, me sinto muito sozinho, às vezes vem um vazio, é sofrível não ter com quem contar. Grato, Pedro.

  2. pedro diz:

    Descobri esse site a alguns instantes, gostei muito do texto e epsero ler outros de igual importância. Parabenizo a vocês pela coragem em se assumir, pois eu como professor, ainda não tive essa mesma coragem. grato, Pedro.

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