A partilha de uma experiência

Posted: 17 de Junho de 2009 by Ricardo Gouveia in Uncategorized

“É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se a derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota.”

(Theodore Roosevelt)

Como tenho vindo a referir não é pretensão do Grupo de Trabalho Identidade x.y,  o mero facto de análise interna, mudança de mentalidades no seio da corporação policial, mas também transportar para o exterior, para o terreno de trabalho da polícia essas mesmas mentalidades, daí a relevância de estarem associadas ao grupo pessoas externas à instituição.

Passo gigante que terá que ser dado muito lentamente.

A exposição pública ou como lhe queira chamar as mentes brilhantes, parece que vão dar frutos mais depressa do que se esperaria.

Sem expor nomes, datas ou locais específicos – porque ainda é obrigatório preservar as pessoas, coisa que também se pretende mudar – quero salientar que ainda existe dentro da corporação quem acredita neste projecto do Sindicato Unificado da Polícia.

Há uns dias atrás encontrava-me de serviço, num local do qual por força do mesmo serviço, não me poderia afastar, quando por uns colegas me foi referido que tinham tido uma ocorrência na qual seria de todo indicado que eu estivesse presente, já que a questão estava relacionada com a homossexualidade e acharam que certamente eu poderia ter efectuada uma abordagem diferente da que conseguiram fazer.

Quando me colocaram a situação, prontamente questionei do porquê de não terem questionado às pessoas envolvidas, da disponibilidade que tinham naquele momento de virem ao meu encontro, tendo estes respondido que se lembraram de o fazer, mas, recearam que pudessem ser por mim mal interpretados, o que de imediato rebati, deixando claro que sempre e em qualquer situação em que possa ser útil nestes factores ou outros, teriam toda a liberdade para me contactarem.

Todos nós tentamos dar o nosso melhor em qualquer nível, não sendo novidade para ninguém que a Polícia, sempre foi o que se denomina por “pau para toda a colher” e cada vez mais assim o é. Temos que ser “psicólogos”, “assistentes sociais”, confidentes, etc… etc…, sempre sem descurar a nossa primeira função e um factor muito importante quando se trata de avaliar situações, a imparcialidade.

Os meus colegas foram atenciosos, o mais que puderam ser, na situação apresentada.

Uma mãe, a quem o seu filho de 17 anos, fez questão de expôs recentemente de uma

forma aberta a sua orientação sexual, preocupava-se com o facto de este, de um momento para o outro, lhe dizer que queria sair de casa para morar com alguém a quem chamava “amigo”.

Pois, assim como ela devem-se estar a questionar:

Quem é esse amigo? Como se chama? É alto, baixo, gordo, magro, novo, velho, etc… etc…?

Passam um sem número de questões pela cabeça de quem ama os seus e de repente sem qualquer previsão, sem estarmos preparados, recebemos uma notícia de choque, não importa qual. A quem recorrer, em quem nos apoiarmos. Pois é, voltamos um pouco atrás, as pessoas questionam-se:

Poderá a Polícia colaborar comigo?

Os colegas deram o seu melhor para colaborar com aquela mãe. Como sei? Porque me foi dito em primeira mão, já irão perceber porquê.

Mas conseguiram saber quem era o amigo de que falava aquele jovem? NÃO.

Certamente ficam muitas coisas por questionar, por serem abordadas. Certamente por mais boa vontade que exista as questões correctas ficam por fazer, porque ninguém é capaz de falar daquilo que não conhece, de realidades que nos são distantes.

Apesar de me ser exposta a situação com algumas horas de atraso, interpelei o colega se este se disponibilizaria para falar com aquela mãe pessoalmente no dia seguinte, face à hora tardia e imprópria, permitindo-lhe que lhe dissesse que eu sou Homossexual, para ver se esta e o seu filho estariam dispostos a vir falar comigo.

A minha surpresa foi imensa quando soube que acederam ambos ao meu pedido.

De facto os jovens homossexuais, assim como os pais, apesar da imensa informação que já existe em torno desta questão, não estão preparados, continuam sem saber como falar uns com os outros de um assunto ainda muito melindroso que é a orientação sexual de cada um.

Tive uma conversa franca com o jovem, com autorização expressa verbal daquela mãe, a qual me merece uma série de elogios, pela forma como acarinha o seu filho e o olha enquanto tal sem tirar nem pôr. De seguida falei com ambos ao mesmo tempo.

Muitas coisas foram ditas de parte a parte, senti claramente que ambos estavam à-vontade para dialogarem à minha frente. Fui apenas um mero interlocutor que ia dirigindo a conversa com cuidado que me era exigível, levando-a ao cerne da questão.

Perguntam agora:

Ficou a mãe a saber quem era o amigo(s)? SIM.

Pela boca do seu filho tudo foi explicado.

Ficou tudo dito? NÃO.

Nem eu tenho a formação específica para entrar em determinados caminhos, não sou assim tão presunçoso. Deixo isso para os nossos Psicólogos, Sociólogos, Sexólogos, entre tantos outros, que têm esses conhecimentos e essa capacidade reconhecida.

O que eu senti que fui capaz, foi de colocar aquela mãe e aquele filho a dialogarem sobre assuntos e sentimentos que não tinham ainda revelado um ao outro. Perceber e dar a perceber àquela mãe pela boca do seu filho, que aquilo foi um acto de revolta, pelo facto de não entender do porquê do Pai parecer não o olhar com os mesmos olhos, como o faz aquela mãe, desde que tomou consciência da sua orientação sexual.

Tentei ainda mostrar àquele filho que, apesar de estarmos em pleno Séc. XXI, apesar da informação existente, quando se trata da orientação sexual e no que diz respeito à homossexualidade, temos de ser capazes de perceber que as pessoas têm o seu “Timing” de adaptação, principalmente quando se trata das pessoas que mais amamos, as que realmente nos importam. Acho que o consegui.

Mostrei a ambos os espaços informativos onde podiam “beber” informação mais cuidada, a respeito deste assunto.

Como sei que o consegui?

Simples, porque já me foi dado o retorno da conversa que tive com ambos, naquele dia, naquela hora. Sei até que o Pai do jovem já deu um pequeno mas importante passo para o diálogo com o seu filho.

Deixo aqui o meu apreço aos meus colegas de trabalho que ainda acreditam na boa vontade sem qualquer pretensão, aqueles que pensam por si só e não para agradar aos outros. Estes sim merecem-me toda a minha atenção e o meu respeito.

As ditas mentes brilhantes, vão referir certamente que isto é uma bela história de encantar. Pois também não estou à espera de outra coisa, tudo a seu tempo.

Logo que estes comecem a confiar neles próprios, deixarão de ter medo daquilo que não conhecem.

Belmiro Pimentel

Coordenador do Ix.y

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